Sem curvas
Sem curvas
Tenho sentido a sua ausência. E o curioso é que ela acontece mesmo quando você está aqui. Talvez a ausência não seja exatamente a falta de alguém, mas a falta do encontro. É possível estar ao lado de uma pessoa e, ainda assim, sentir saudade dela.
Tenho chorado na sua presença. E quase sempre você pergunta se eu estou passando mal. A pergunta é bonita porque demonstra cuidado. A resposta é feia porque nunca é verdadeira.
“Não.”
É sempre “não”.
Talvez porque eu não saiba explicar que existe um cansaço que não dói no corpo. Um cansaço que se instala na alma como quem muda de endereço sem avisar. Eu faço tanta coisa. Cuido de tanta coisa. Penso em tanta coisa. E faço tudo com amor. Mas amor também cansa. Talvez essa seja uma das verdades menos românticas da vida.
Tenho sentido falta de nós.
E antes que essa frase soe como uma acusação, preciso dizer que tenho tentado entender você. Entender sua rotina, seu trabalho, as urgências que ocupam os seus dias. Imagino o peso que você carrega. Imagino o quanto deve ser difícil. Eu realmente tento.
Mas há dias em que parece que moramos em mundos diferentes. Mundos vizinhos, talvez. Um acena para o outro pela janela, mas já não atravessa a rua.
Percebi que faz tempo que não planejamos alguma coisa juntos. Não porque seja impossível, mas porque parece que fomos desaprendendo. Cada um passou a administrar o próprio dia, a própria lista de tarefas, os próprios cansaços. E, sem perceber, deixamos de administrar aquilo que existia entre nós.
Às vezes me pergunto quando isso aconteceu.
Outras vezes me pergunto se realmente aconteceu.
Talvez a minha memória tenha inventado um relacionamento que nunca existiu.
É estranho desconfiar da própria lembrança.
Será que fomos tudo aquilo de que sinto falta ou fui eu quem completou os vazios com aquilo que precisava acreditar? A memória é uma narradora generosa. Ela suaviza arestas, aumenta delicadezas, protege o que seria insuportável lembrar como realmente foi.
Talvez você sempre tenha sido exatamente assim.
Talvez eu apenas tenha começado a precisar de uma presença que antes eu não sabia que precisava.
Essa possibilidade me assusta.
Porque, quando a gente deixa de confiar na própria memória, começa também a desconfiar da própria sensibilidade.
E eu já passei tempo demais acreditando que sentir muito fosse um defeito.
Hoje, o que mais me constrange nem é o choro. É a vergonha que vem depois dele. Como se cada lágrima denunciasse uma fraqueza que eu deveria esconder melhor. Fico com vontade de pedir desculpas por sentir. Desculpas por esperar. Desculpas por precisar.
Como se o problema estivesse sempre em mim.
Tenho tentado aprender outro jeito de existir. Um jeito mais leve. Menos dependente das expectativas. Menos vulnerável às ausências. Ainda não consegui.
Às vezes queria ver o mundo pelos seus olhos. Você parece atravessar as dificuldades com uma objetividade que eu invejo. Enquanto isso, eu me detenho em detalhes que talvez nem existam para você. Um silêncio muda completamente o meu dia. Uma palavra dita sem atenção permanece comigo durante horas. Um gesto pequeno pode me salvar. Outro, igualmente pequeno, pode me fazer desaparecer por dentro.
Talvez eu seja sensível demais.
Ou talvez eu seja apenas sensível.
Passei tanto tempo ouvindo que eu precisava endurecer que já nem sei se desejo isso de verdade. Porque endurecer também significa perder alguma coisa. E eu não quero perder a capacidade de me comover.
O que dói não é sentir.
O que dói é imaginar que você talvez não compreenda o que acontece dentro de mim. Ou, quem sabe, compreenda e simplesmente não saiba o que fazer com isso.
E eu nem espero que saiba.
Não quero que você resolva o meu mundo interior. Nem que adivinhe os meus pensamentos. Só queria não sentir que a minha sensibilidade chega sempre como um problema a ser administrado.
Então eu faço o que sempre fiz.
Eu me calo.
Viro para o lado.
Às vezes me tranco no banheiro.
Às vezes espero o choro passar antes que alguém perceba.
Como se esconder uma emoção fosse uma maneira de deixá-la menor.
Nunca é.
Talvez eu esteja cansada de transformar tudo em silêncio.
Talvez eu esteja cansada de explicar.
Talvez eu esteja cansada de justificar você para mim e justificar a mim para você.
Talvez exista um momento em que a coragem não seja falar mais alto, mas falar mais simples.
Sem curvas.
E a verdade mais simples que encontrei até agora é esta:
Eu não preciso que você conserte a minha sensibilidade.
Só precisava sentir que ela também tem um lugar onde possa descansar.
Porque, apesar de tudo, apesar das dúvidas, apesar do medo de estar lembrando errado, apesar da vergonha de sentir tanto…
Eu ainda sinto que existe alguma coisa em nós que merece ser encontrada de novo.
Por Marister Lopes
(Texto criado a partir de vários anotações/desabafos de diferentes datas)
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